VAMOS CONVERSAR!
~por Daisy Charifo.
“Quem me dera falar de amor. Quem me dera dizer ao meu pai que eu sinto amor.” O desejo silencioso de muitos jovens trazido à tona na voz da cantora moçambicana Assa Matusse. Em sua voz, a percepção social do amor ganha forma por meio de interrogações como: “Aprendeste aonde?”, “ Ouviste isso aonde?”, “ Tu andas aonde?” e é sob a pressão dessas perguntas que muitos jovens se veem reprimidos pela convicção de que o amor e o sexo andam, obrigatoriamente, de mãos dadas.
Nessa lógica de censura velada, amar deixa de ser um sentimento legítimo para se tornar indício de uma transgressão. E assim, recordo-me, que há seis anos, a marca de preservativos Jeito fez uma escolha interessante ao patrocinar a série televisiva intitulada Aquele Papo, abrindo espaço para diálogos que a sociedade e milhares de famílias insistem em silenciar. A série realiza um trabalho excepcional desde a escolha da música de abertura, o roteiro, o contexto e o desenvolvimento de cada um dos personagens, que por si só, trazem respostas para as perguntas que Assa encarna em sua canção.
A noção da distinção entre amor e sexo, a longa caminhada até que ambos se entrelacem, o peso da decisão e as consequências dessa mudança são apresentadas por uma série desenvolvida no cenário da Escola Secundária Josina Machel e não no seio familiar.. Ironicamente, isso acontece numa sociedade que aprendeu a normalizar casamentos prematuros, assédio sexual e moral em universidades e escolas, assim como o abuso.
E, daqui para frente, as coisas piorarão de forma descarada, porque os pais, supostamente protetores contra monstros imaginários, muitas vezes não conseguem identificar monstros concretos. É na repressão trazida à tona pela voz de Assa Matusse, na repulsa à ideia de educação sexual nas escolas e na normalização do assédio sexual nas universidades que o bilhete para o fim da sociedade ganha espaço.
Deparei-me com uma dúvida bastante inquietante: quantos jovens, ou até mesmo adultos, têm noção de educação sexual? Creio que nem metade tem. Daí surge outra pergunta que me assombra: quantos pais tocam no assunto com os filhos?
Educação sexual não é ensinar a fazer sexo; pelo contrário, permite que as crianças aprendam sobre o seu corpo e saibam identificar quando e onde devem ser tocadas, o que as ajudará a prevenirem-se de ataques disfarçados de carinho e atenção. Garanto-vos que fico abismada ao perceber que os mesmos que não falam de sexualidade e não permitem que livros como os da sétima classe sejam publicados esperam que as crianças adquiram conhecimento sobre o assunto de forma ideal. Mas afinal, qual é a melhor forma de aprender sobre genitália, prevenção e tratamento se não for em casa? Sites, colegas ou aliciadores?
Queridos pais, escondam-se por detrás da fachada de que “não chegou a altura certa”, mas não reclamem de gravidezes precoces, doenças e estupros que nunca foram denunciados por não terem sido identificados.
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