A ELETRIFICAÇÃO RURAL E OS DESAFIOS DA GESTÃO DE EXPECTATIVAS NAS NOVAS LIGAÇÕES.
~por Daisy Charifo.
“Entre promessas e postes, a luz que chega às zonas rurais carrega mais do que eletricidade. Carrega expectativas, desigualdades e a urgência de transformar promessas em permanência”
Quando os primeiros postes e estações de energia surgem em zonas rurais, o pensamento imediato é de vitória.
A Estratégia de Eletrificação rural da Eletricidade de Moçambique (EDM) em conjunto com o Programa Energia para Todos (ProEnergia) e o Fundo Nacional de Energia (FUNAE) estabelece como meta o acesso universal até 2030, contudo, diante do cenário atual, torna-se evidente a dificuldade de cumprir integralmente este compromisso. Ainda assim, tal cenário não retira o mérito da notável velocidade de expansão registada ao longo dos anos, que evidencia o empenho da Eletricidade de Moçambique (EDM)em levar energia elétrica do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico, conectando o país de norte a sul e de oeste a leste.
Segundo dados do Banco Mundial, em 2018, o nível de acesso à eletricidade em Moçambique era de cerca de 31% da população total, tendo subido para aproximadamente 60% até finais de 2024, passando para aproximadamente 61.4% em maio de 2025, de acordo com dados da Eletricidade de Moçambique(EDM). Entretanto, nessas estatísticas, as desigualdades urbanas e rurais permanecem gritantes.
Mas o que significa, de fato, "acesso universal"? Quais são os gargalos técnicos, financeiros e operacionais que transformam essa meta numa escalada abrupta? E de que maneira a gestão de expectativas se converte no estopim que definirá se a vitória será apenas simbólica ou transformadora?
A promessa de acesso contínuo e sustentável de todos cidadãos a corrente elétrica, traz consigo grandes esperanças, que buscam soluções na necessidade de gestão de tais expectativas nas novas ligações.
Os desafios estruturais e sociais.
Mesmo com vontade política e mobilização de parcerias internacionais, vários obstáculos latentes enfraquecem e atrasam o processo. Até porque, linhas de transmissão e distribuição em áreas montanhosas ou com rios, vales e solos frágeis exigem obras de engenharia mais complexas e dispendiosas. Cada poste erguido numa zona muito isolada pode ter custos de transporte e fundação muito superiores aos custos observados em regiões próximas a centros urbanos. Além disso:
- O crescimento demográfico acelerado requer que a rede e a capacidade geradora cresçam em paralelo. Caso contrário, ocorre sobrecarga, quedas frequentes e deterioração do serviço, minando a percepção pública de progresso.
-A instabilidade social e política leva a perdas técnicas e não-técnicas( roubo de energia, sabotagem, etc), que representam uma fatia significativa dos custos operacionais da Eletricidade de Moçambique (EDM).
-Mesmo com a conexão disponível, muitas famílias não conseguem pagar os custos fixos de mensalidade. Se os custos são altos ou se há incerteza de funcionamento, o valor percebido pode não compensar o sacrifício econômico ou a adaptação necessária (reformas na casa, compra de eletrodomésticos, etc.).
1. Factos
Em áreas cobertas por mini-redes do Fundo Nacional de Energia(FUNAE), famílias cujas casas ficam a dezenas de quilómetros da estrada principal esperam muitas vezes décadas para uma ligação. O anúncio de mini-redes traz expectativa; a demora na construção ou a interferência do preço dos materiais importados geram desapontamento.
2. Disparidades Provinciais
Dados antigos (2011) de relatórios do Ministério das Finanças mostram que províncias do norte como Cabo Delgado e Niassa tinham taxas de acesso de eletrificação abaixo de 10% (8,2% em Cabo Delgado; 9% em Niassa), enquanto províncias do sul, como Maputo Cidade, apresentavam taxas muito superiores (aproximadamente 82%).
Isso significa que uma promessa de "acesso universal" reflete condições heterogéneas: algo que pode ser real para Maputo é distante, literalmente, para zonas remotas no centro e norte do país.
Entre o poste e a ligação.
Gerir expectativas não é simplesmente ajustar discursos públicos. É uma engenharia política, técnica e social tão intrincada quanto projetar linhas de transmissão ou calcular perdas de tensão em cabos longos. Assim, é essencial que a transparência ajude a população a perceber que acesso muitas vezes significa que a rede elétrica está na proximidade (transformadores, poste, cabos), mas conexão efetiva implica ligação até o domicílio, instalação de medidor, capacidade de cumprir requisitos estruturais do domicílio através da existência de quadro elétrico, isolamento adequado e fiação segura..
Para que a promessa de "vitória elétrica" não se torne desilusão, é necessário considerar:
• A transparência, ou seja, discutir prazos, custos, limitações; comunicar não só "vamos ligar", mas "quando" e "como" e explicando que projetos dependentes só de doações tendem a ter prazo limitadoe que integração de tarifas adaptadas, modelos mistos de financiamento público-privado e subsídios bem dirigidos são necessários.
• A comunicação participativa envolvendo as comunidades rurais desde o início sobre localização de transformadores, prazos de obra, exigências estruturais, etc.
• A capacidade técnica local, treinando técnicos locais, garantindo que manutenções possam ser feitas com rapidez e qualidade para evitar que quedas prolongadas corroam a confiança.
Entre promessas e realidades.
Para além dos números, é nas histórias que vemos o impacto concreto e onde se mede a eficácia da gestão de expectativas.
Apesar dos avanços dos últimos anos, o fornecimento continua instável em várias zonas periféricas. Na Machava, por exemplo, os cortes de energia são tão frequentes que os moradores já aprenderam a conviver com o imprevisto.
“Sofremos com cortes constantes de energia, muitas vezes sem aviso prévio, e que podem durar o dia inteiro. Também precisamos de manutenção urgente dos transformadores”, lamenta Marcela da Graça, residente no bairro.
O seu testemunho reflete a frustração de milhares de moçambicanos que, embora oficialmente ligados à rede, vivem entre luzes que piscam e promessas que falham.
Mas há exceções. No Zimpeto, a realidade é mais estável:
“Já faz alguns anos que há melhorias, os cortes são avisados e não duram mais de seis horas”, afirma Emília de Abreu, residente da zona.
O Programa Energia para Todos (ProEnergia), liderado peloMinistério dos Recursos Minerais e Energia de Moçambique (MIREME), implementado pela Eletricidade de Moçambique (EDM) e pelo Fundo Nacional de Energia (FUNAE), busca precisamente responder a este desequilíbrio estrutural, promovendo sinergias entre a geração centralizada e soluções descentralizadas.
O caminho para a solução.
Toda promessa precisa de um plano que a sustente. No caso da eletrificação rural, a sustentabilidade começa no detalhe.
Com base em dados, histórias e desafios, podemos identificar componentes-chave que devem ser fortalecidos para que a promessa da eletrificação não se desgaste até virar desilusão.
1. Diagnóstico Local Detalhado.
Antes de erguer postes, é necessário o levantamento preciso de demografia, topografia, demanda estimada (energia consumida em média por lar, que aparelhos usarão, etc.), capacidade de pagamento, existência de infraestrutura básica na fiação doméstica, quadros elétricos e isolamento.
2. Modelagem Técnica e Financeira Transparente.
Calcular custos por quilómetro de linha, tipos de transformadores, perdas previstas, estimar custos de operação e manutenção; mostrar qual parte será bancada pelo Estado, por doações, por tarifas, por subsídios.
3. Cronogramas Realistas e Marcos de Acompanhamento.
Dividir o processo em fases: construção da rede, instalação de transformadores, ligação domiciliar, aferição da qualidade do fornecimento. Cada fase com prazo estimado, cada comunidade sabendo em que fase está.
4. Comunicação Clara com a População.
Usar rádios locais, reuniões de aldeia, lideranças tradicionais, explicar que a presença da rede não significa luz imediata, que poderá haver interrupções iniciais e que ajustes poderão ser necessários.
5. Mecanismos de Feedback e Correcção.
Estabelecer canais onde comunidades possam notificar falhas, quedas de fornecimento, problemas com variabilidade de tensão e, garantir respostas rápidas (manutenção, reposição).
6. Modelos Mistos de Tecnologia.
A fusão de mini-redes e soluções off-grid para zonas de difícil alcance; energia solar, com baterias ou sistemas híbridos, para reduzir dependência de combustíveis fósseis ou redes extensas; aplicação de geração local para comunidades (painéis solares domésticos; micro-hidrelétricas, se houver rios com potencial) é um processo a ser analisado
7. Interdependência política.
Há uma dimensão ética e política na gestão de expectativas: prometer sem poder cumprir pode ser tão danoso quanto não prometer. A confiança pública, uma vez quebrada, é difícil de restaurar, visto que:
-A credibilidade institucional depende dos actos. Se grandiosos anúncios vêm seguidos de atrasos ou de instalação precária, cresce o cepticismo.
- Eleições, lideranças locais e pressão política amplificam a expectativa; promessas de campanha muitas vezes enfatizam metas ambiciosas sem detalhamento técnico ou indicação de fontes de financiamento.
O risco é que a promessa de eletrificação universal seja usada como discurso simbólico, mais do que compromisso verificado. Isso alimenta frustração social, perda de legitimidade e, em última instância, desinteresse ou descrença na política pública.
Vitória reluzente ou caminho persistente?
É impossível falar de eletrificação rural sem evocar o tempo. O tempo de espera, o tempo da promessa, o tempo da lâmpada acesa após o pôr do sol. Há uma espécie de lirismo inevitável: a luz como metáfora de desenvolvimento, calor humano, futuro promissor.
Mas o lirismo não basta. Ele deve estar ancorado ao concreto: no watt-hora(Wh) entregue, no poste que permanece firme, no fio que não se deteriora com ventos ou chuvas, no transformador que não queima com a sobrecarga.
Quando comunidades esperam a luz, esperam também a dignidade. Não apenas para acender lâmpadas, mas para que possam estudar, refrigerar vacinas, ligar computadores, operar pequenos negócios, serem vistas como parte de um país, não como testemunhas do atraso.
A promessa de eletrificação universal até 2030 é um farol. É um objetivo que inspira, une, mobiliza. Mas para que esse farol não seja apenas imagem distante, Moçambique precisade mais do que ambição: precisa de realismo informado, gestão de expectativas comprometida e políticas robustas que combinem técnica social e financeira.
A primeira vitória se dá com o poste erguido; a vitória maior se dá quando a luz permanece estável, quando crianças estudam até tarde, quando pequenas empresas operam, quando farmácias mantêm vacinas, quando a esperança não se apaga com a escuridão nem com promessas tardias.
Se em 2030 pudermos olhar para trás e contar não só domicílios conectados, mas vidas transformadas, então poderemos dizer: vencemos. E sem falsos brilhos, mas com luz de verdade.
E, portanto, gerir expectativas é iluminar o caminho antes que a luz surja. Uma tarefa que exige noção de que expectativas são o caminho entre o anúncio e a realização.
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