FEITAS DE CINZAS EM MIA COUTO
~por Daisy Charifo
Mia Couto não me chegou à prateleira por mero acaso, mas por sua notável trajetória no mundo literário. Entre as muitas obras que compõem o vasto universo Coutiano, Mulheres de Cinza ergue-se como um testemunho de amor, memória e resistência. Publicado em 2015, o romance inaugura a trilogia As Areias do Imperador e situa-se num período de grande convulsão histórica: o fim do reinado de Ngungunyane e o início da ocupação efetiva de Moçambique.
Ler Mia é pensar: “Eu viveria isso” e, ao mesmo tempo, gritar: “Isso definitivamente nunca aconteceria”. É exatamente nessa oscilação entre a realidade e a fantasia que reside o encanto da narrativa. Mulheres de Cinza não nega o seu criador, sendo abrigada sob o excepcional véu de verosimilhança e inverosimilhança que caracteriza toda a produção do autor.
Logo nas primeiras linhas, o leitor é conduzido a um tempo em que a imaginação não é fuga, mas memória ancestral. O “firmamento maior” simboliza o espaço da narrativa oral africana, onde vivos e mortos coexistem. Essa dimensão do maravilhoso, longe de afastar o leitor da realidade, aproxima-o da essência de um povo cuja história foi, tantas vezes, escrita e contada por outros.
A narrativa baila entre os labirintos de um amor interracial vivido por Imani e Germano e os bastidores da concretização da chamada Ocupação Efetiva, instigando o leitor à investigação e ao estudo de momentos marcantes que representam não só a nossa história, como os caris que norteiam o nosso presente.
Nas palavras de Mia, conceitos como tática de dividir para reinar e colônias de degredo ganham corpo quando percebemos que sargento Germano era um criminoso cuja punição consistiu em vir viver em Moçambique. Percebemos também que, para os portugueses, era mais fácil aliar-se a tribos locais descontentes com o reinado de Ngungunyane e aproveitarem-se da confiança de outros líderes ao casarem-se com suas filhas e infiltrarem-se nas comunidades.
Entre a verossimilhança e a fantasia, o autor constrói um espaço onde o amor é resistência e a memória, redenção. Ler Mulheres de Cinza é, portanto, um ato de reencontro com a história e, sobretudo, com a humanidade que deve persistir nas cinzas. Há, na obra, uma busca incessante por identidade por parte de Imani, que retrata tantas outras mulheres em busca de pertencimento.
Curiosamente, o romance de Mia Couto tem como título original Mulheres de Cinza, tendo sido publicado no Brasil com o título Mulheres de Cinzas. Essa discrepância altera o sentido, pois o termo Cinza cria no leitor a ideia de mulheres vestidas de trajes da cor cinza, enquanto Cinzas remete a mulheres feitas de cinza. Considerando o contexto histórico e mergulhando no seio da narrativa, cinzas seria a escolha mais adequada, pois, tal como o pó que resta da combustão do carvão, as mulheres eram lançadas ao vento depois de usadas. Mia Couto devolve-lhes o corpo e a voz, reconstruindo o passado a partir de suas cinzas.
Finalmente, a escrita de Mia Couto em Mulheres de Cinza exige do leitor uma atenção ativa. Entrelaçando história, memória e magia, ele constrói um espaço literário em que passado e presente dialogam constantemente, convidando-nos a refletir sobre a identidade, a memória coletiva e a força das mulheres que, mesmo lançadas às cinzas, conseguem reconstruir-se e afirmar-se. Ler esta obra é, portanto, mergulhar num oceano de histórias entrelaçadas, em que cada fio da narrativa revela uma verdade humana profunda e universal.
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