A SENTENÇA DA VIDA E DO DIREITO, em Glen Lucas.

 ~por Daisy Charifo.

Existem autores e existem escritores. E todos sabemos o quão desafiador é encontrar um verdadeiro escritor em meio a um universo repleto apenas de autores. Nada, porém, é mais gratificante do que testemunhar o florescer de um talento autêntico.

Em A Sentença, Glen Lucas faz um convite fascinante: conhecer o mundo jurídico, a vida e o próprio sentido dela.

Composta por oito capítulos, a obra, sustentada pela verossimilhança, conduz o leitor por uma travessia que passa pelo divino, pelo cotidiano, pela Filosofia, pelo mundo jurídico até chegar à grande sentença: a da vida e a do próprio Direito.

O primeiro trecho da obra é a chave para uma jornada de aprendizado memorável, preparando o leitor para mergulhar numa narrativa que une reflexão e conhecimento de forma singular:

"E a humanidade não parava de me surpreender. Realmente, parece que Einstein estava certo: não existem limites para a estupidez humana.Pois, ora vejamos: vivia-se um momento histórico, em que ela passava por uma pandemia, que já tinha dizimado milhões de vidas, levando a tenebrosa solidão do túmulo vários sonhos, tirando pais de seus filhos, filhos de seus pais, deixando à mercê a vida diversas famílias, que, em muitos casos, além de verem tiradas de si a fonte de seu sustento, foram condenadas a viver com um grande vazio, que surge por conta de ausência física de alguém a quem muito se ama."

O desgosto pelo percurso da humanidade é um elemento inatingível. Surgem perguntas sobre o que se segue e uma necessidade gritante de entender o contexto histórico.

O texto é de uma fluidez tamanha, que várias vezes cheguei a questionar-me o carácter fictício do mesmo, colocando-me na posição de pesquisar sobre a existência do renomado advogado criminalista, Estêvão Muchanga e do escritório Couto, Graça e Associados. Por breves segundos esperei que o protagonista dissesse chamar-se Glen, até porque a narração é de uma naturalidade tida por vivida.

A transição entre conceitos como sísifos e direito natural e, entre o absurdo existencial e o racionalismo jurídico é de uma leveza rara, como se a Filosofia e o Direito caminhassem lado ao lado, sustentando o mesmo edifício. E tal maturidade literária deve-se a uma notável e  fascinante erudição.

 

A Sentença não é apenas uma obra sobre Direito ou Filosofia; é um convite profundo à reflexão sobre a condição humana. Glen Lucas consegue harmonizar erudição e sensibilidade, transformando conceitos complexos em experiências palpáveis e emocionantes. A leitura nos lembra que, assim como no mundo jurídico, a vida exige julgamento, ponderação e coragem diante do desconhecido. Ao fechar o livro, o leitor entende melhor o mundo jurídico, mas também se vê compelido a compreender a si mesmo, a humanidade ao seu redor e a inevitável intersecção entre razão e sentimento. Em poucas palavras, a obra é um testemunho daquilo que distingue um verdadeiro escritor: a capacidade de tocar mentes e corações ao mesmo tempo. E a constatação de uma promessa preliminar.Não é o autor que decide, não é a história que termina: é o leitor quem deve pesar o próprio coração, medir a própria justiça e escrever, em silêncio, a sentença que levará para além das páginas.


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