REFÚGIO DE LIA.


Desde pequena, Lia sentia uma afinidade especial com o silêncio. Enquanto as outras crianças brincavam no quintal, riam e corriam atrás das borboletas, ela buscava refúgio na varanda da casa antiga da avó, onde o vento parecia contar segredos entre as folhas das árvores. Ali, sozinha, Lia descobriu que a solitude não era solidão, era companhia consigo mesma.

Meninas brincavam no quintal, suas vozes animadas e passos leves compondo a trilha sonora daquela tarde de verão. Ao mesmo tempo, beija-flores rodopiavam no azulado lençol que vai nos cobrindo em todas as etapas da vida, aquele céu límpido que parecia abraçar o mundo com sua calma azulada.
Enquanto observava o balé delicado das pequenas aves, Lia sentia que ia construindo, dia após dia, um mural invisível em homenagem a uma bela enfant que outrora sonhara com uma vida colorida, cheia de possibilidades e sonhos vivos.


O relógio marcava cada segundo daquele curto sonho: o instante em que a infância e a inocência se encontravam, prestes a serem tocados pela passagem do tempo. Aos poucos, o céu azulado começava a tornar-se acinzentado, como um prenúncio da realidade existente e palpável que viria a seguir.
Foi numa dessas tardes, enquanto o mundo ao seu redor mudava de cor, que Lia encontrou um banco antigo no parque próximo de casa. Sentou-se ali, ouvindo o silêncio e observando os beija-flores voarem para a casa ao lado, em busca de novos jardins.
Uma senhora idosa aproximou-se e sentou-se ao seu lado, oferecendo-lhe um pequeno livro encadernado em couro, intitulado “Para quando a solidão pesar demais”.
Curiosa, Lia abriu o livro e encontrou páginas em branco, prontas para acolher suas histórias, seus medos e suas esperanças. Olhou para a senhora, mas ela já tinha se levantado e caminhava lentamente para fora do parque, desaparecendo entre as árvores.

 E ali, na solitude, ela descobriu um espaço onde poderia construir o seu próprio mural, não mais só um sonho infantil, mas uma vida inteira a ser colorida com as tintas da coragem e do amor por si mesma.

Hoje, Lia é uma escritora famosa, nunca se casou, nem teve filhos, mas construiu mundos inteiros com suas palavras, tocando milhares de almas que encontraram em seus livros um refúgio tão verdadeiro quanto o que ela sempre buscou.
Ainda visita aquele banco antigo, aquele jardim onde a solitude a ensinou a ser inteira. E enquanto observa os beija-flores rodopiarem no céu que agora parece mais azul do que nunca, Lia mantém viva a esperança de escrever, finalmente, um final feliz para si mesma: uma história onde a solitude e o amor próprio caminham juntos, numa dança delicada de liberdade e afeto.

~por Daisy Charifo


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