MEIO A MEIO, no filme O Moderno, de Ivan Simone e Sousa Domingos.

 "Há uma infinidade de ciclos que podem ser alterados; entretanto, como mudar as nossas raízes?", "Como fazer os outros perceberem que centenas de rituais praticados pelos meus antepassados se encerram em mim?"

Essas interrogações ecoam quando a tela se apaga em O moderno, de Ivan Simone e Sousa Domingos. 

O filme não se limita a opor tradição e modernidade, ele expõe o vazio que se abre entre ambas. Nesse espaço de tensão, o espectador é levado a refletir sobre a ruptura com os antepassados e o peso das escolhas que definem a identidade contemporânea. Essa tensão se materializa na contraposição entre o Moderno, personagem principal que encarna o desejo de ruptura, e a família, que simboliza a resistência da tradição. O Moderno representa a busca de novas rotas, a abertura para o inédito, mas também a solidão de quem abandona uma herança coletiva. Já a família, representada através da mãe; ao reivindicar os rituais, coloca em evidência a força das raízes e a necessidade de continuidade. Essa dicotomia não se reduz a um conflito individual, ela dramatiza a condição de uma sociedade inteira: dividida entre preservar sua matriz cultural e dialogar com os ventos da modernidade.

 O vácuo entre o tradicionalismo e o modernismo é, sem sombra de duvidas, um espaço a ser preenchido. Ao colocar em xeque a permanência dos rituais ancestrais e a urgência da mudança, a obra instiga a pensar: "o que se ganha ao modernizar e o que se perde ao deixar morrer um ciclo?" Trata-se de um espaço que, ainda clama por ser preenchido não pela negação de um lado em favor do outro, mas pela difícil construção de um diálogo.

Essa distopia encontra no figurino um dos seus elementos mais eloquentes. A família veste capulanas, tecidos que não são apenas roupas, mas suportes de memória e identidade coletiva. As capulanas evocam maternidade, ancestralidade e pertencimento comunitário. Cada dobra do tecido parece carregar histórias passadas de geração em geração, reforçando a ideia de continuidade.

Em contraste, o Moderno surge de fato, traje que simboliza o mundo urbano, a lógica ocidental, o trabalho formal e a racionalidade capitalista. O corte reto e a neutralidade da roupa contrastam com a riqueza cromática e simbólica das capulanas, revelando a distância entre um universo enraizado e outro que busca a neutralidade globalizada. Aqui, o vestuário não é mero adorno, mas linguagem: o fato apaga, homogeneíza, enquanto a capulana inscreve e singulariza. Esse contraste figurativo reforça a oposição já desenhada na narrativa: de um lado, o Moderno, isolado em seus gestos e espaços, vestido para caber num mundo que não é originalmente o seu; de outro, a família, unida em comunidade, trajada por um tecido que é ao mesmo tempo vestimenta e símbolo de resistência cultural. O figurino, portanto, funciona como metáfora visual da escolha que atravessa o filme: ser absorvido pela lógica da modernidade ou continuar a existir através de signos que resistem ao tempo.

A linguagem cinematográfica reforça essa ambivalência. Nos planos do Moderno, a câmera tende a isolá-lo em cenários amplos ou urbanos, sublinhando o seu deslocamento e a sua solidão. Nas cenas da família, a composição é coletiva, com corpos próximos e gestos repetidos, evocando o sentido comunitário e a densidade da ancestralidade. A estética da imagem, assim, traduz em termos visuais a luta simbólica entre individualidade e coletividade, entre o desejo de modernizar e a necessidade de pertencer.

A escolha estética reflete-se na trilha sonora, que por sua vez, assume um papel fundamental, composta exclusivamente por cantos, tambores e sonoridades tradicionais, funciona como resistência, como lembrança insistente de que o passado não se apaga mesmo quando não ocupa o centro da narrativa. O fato de não haver sons modernos ou eletrônicos é, por si só, uma escolha estética e política inteligente, a trilha sonora não acompanha o personagem principal em sua tentativa de ser "moderno", mas o contraria, recordando ao espectador que, por baixo da superfície da modernidade, pulsa ainda a voz ancestral. O tradicionalismo, nesse caso, não é apenas um tema do filme, mas também a própria matéria da sua sonoridade.

No fim, O moderno não se limita a contar uma história: ele expõe uma ferida aberta. Entre a capulana que guarda memórias e o fato que promete futuro, entre o canto ancestral que ecoa e o silêncio que se instala, o espectador percebe que não há como viver sem negociar com as próprias raízes. A modernidade, despida de diálogo com a tradição, corre o risco de se tornar um fato vazio; e a tradição, isolada de qualquer abertura, arrisca-se a ser apenas capulana guardada em 

O filme lembra-nos que ser contemporâneo não é escolher um dos lados, mas habitar a tensão entre eles. É reconhecer que toda vida, para existir, precisa aprender a caminhar com um pé no passado e outro no futuro, sem deixar que um destrua o outro. É perceber que, tal como a água, ora bênção, ora fúria, nós também oscilamos entre permanência e mudança. E talvez seja essa a lição última de O moderno: não há modernidade que sobreviva se nascer do esquecimento. Ser moderno é carregar as raízes sem petrificá-las; é permitir que o tecido da capulana respire dentro do corte do fato. Porque, no fundo, o diálogo entre o que fomos e o que desejamos ser é o único território possível para existir plenamente.

~por Daisy Charifo

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