ENTRE O SOM DO ENCANTO E A PONTE DO REMORSO, em Mufolhe da Banda Kakana.
~por Daisy Charifo e Alfredo Cone.
A música Mufolhe, da Banda Kakana, traz à vista o arrependimento vivido pelo personagem incorporado pela cantora moçambicana Yolanda Kakana.
O título, embora impreciso diante dos sentimentos do personagem, torna perceptível tratar-se de um narrador masculino trazendo à tona o contexto: Imigração ilegal para às minas da África do Sul, facto maioritariamente vivido por homens.
A melodia calma e suave acaba soando como um chamado ao desabafo. Desabafo que revela arrependimento por não ter voltado à casa e, a constatação de que o dinheiro um dia acaba e vêm à mente recordações de um passado perdido por escolha própria. Na composição, cada nota musical é um suspiro, cada acorde um gesto contido, cada silenciamento um espaço para o coração pulsar no vazio da espera. Desde os primeiros compassos, o violão ora dedilhado, ora suavemente arrastado, estabelece um ambiente introspectivo com as guitarras limpas e acordes musicais. Juntos têm uma sonoridade etérea e espaçosa, quase que suspensas no tempo. Criam um espaço para introspecção, solidão, remorso e saudade.
A forma como os acordes são tocados lentamente e com ressonância sugere alguém que relembra e sente falta. Não há pressa, tudo é contemplativo.
Assim, a instrumental, longe de ser mero suporte, é um organismo vivo, pulsante, que se desdobra em camadas de sentido e sentimento. O violão dedilhado, quase tímido em sua aparição inicial, se revela uma voz muda de quem contempla a ausência. Sua tessitura leve e espaçada fala do tempo parado, da memória que insiste em permanecer fresca, das palavras não ditas entre amantes distantes. Essa sonoridade encontra eco no trecho“ Malembe yaku tala Ninga tirhela djoni / Nixengiwa hi xinkwa nitinyama, goodlife” e traz o ponto central da composição, ou se quisermos, confissão; pois o personagem admite que se foi a procura de melhores condições para sua família, entretanto, deixara levar-se pelo deslumbre. Deslumbre que o fez esquecer-se de um filho que deixara ainda no ventre de uma esposa dedicada, que hoje deve ter superado o luto e se casado novamente: “Nsati wamina kumbexana vatekile”.
O filho que nunca conheceu o pai, abre portas para a reflexão sobre como milhares de crianças nascem, crescem e deixam legados sem nunca terem conhecido seus pais, por escolha destes. Outra perspectiva a analisar seria a de que mesmo que, o afastamento do pai não tenha sido por deslumbre, e sim pela procura de melhores condições, a busca incessante dos pais por poder acaba deixado crianças sedentas de amor e validação paterna. O próprio personagem faz referência a isso quando refere que “o amor não se envia”, recorrendo ao uso de uma sútil comparação entre o amor e os Rands que o iludiram no trecho: “Nixengiwa hima rande / Nidzivala maxaka ya mina, lê kaya”.
Nesse ponto os teclados etéreos surgem como brisa, flutuam entre os espaços deixados pelo violão e pela voz. Representam o sonho e a esperança, ou “algo a mais” que sustenta a alma na tormenta da separação. Estes discretos, mas extremamente eficazes em criar ambientes sonoros aéreos e etéreos. Às vezes, soam como um sopro de vento; em outras, sustentam acordes longos que flutuam sob a melodia principal. Transmitem emoção, esperança suspensa, espiritualidade e sonho. Eles expandem o espaço emocional da canção, permitindo ao ouvinte “respirar” entre encontros e desencontros.
Há, também, em Mufolhe, uma insistente saudade de casa. Casa como família, casa como identidade, casa como país. Uma casa que se mede não só por paredes e ruas conhecidas, mas pelo sabor das coisas que não se encontram em qualquer terra. É uma saudade que se revela também nos silêncios e nas pausas da música, como se o narrador tivesse consciência de que amor não se sustenta apenas com dinheiro, nem se envia pelo correio. Porque amor não come xima e nem xiguinha, pratos típicos da zona sul de Moçambique que carregam memória, pertença e afeto.
No entrelaçar desses instrumentos e da própria narrativa, a Banda Kakana cria um espaço sonoro que espelha a alma humana em seu estado mais vulnerável, o da espera pela volta do outro e da reconstrução do vínculo despedaçado pela distância. A voz de Yolanda Kakana conduz essa história com intensidade e verdade.
Na voz de Yolanda Kakana, essa história deixa de ser apenas a de um personagem anônimo e se torna a voz de tantos outros que partiram com promessas e regressaram com desculpas tardias ou que jamais voltaram. Tornando ainda mais comovente o instante final da canção quando se percebe que, apesar da distância e do abandono, a família ainda espera. Espera o homem, o pai, o filho da terra. É como se o chamassem para conhecer este filho que só o conhece por fotos e para sentir este grande amor que permaneceu intacto por anos: “ Hita ku nyimela, le xititxini / Hikusa yaku randza, nayine yaku xuva makwerhu/ Ahina ntxumu / Hantleni ka lirhandzu, mbilwini.”
Mufolhe é, assim, uma obra que se ouve com o corpo todo. É possível analisar a técnica, perceber a estrutura, identificar as escolhas harmônicas, mas é impossível não sentir o peso e a beleza de cada nota. É uma música que fala tanto de partida quanto de regresso, tanto de perda quanto de resistência e que nos lembra que, para alguns, voltar para casa é voltar para um país inteiro, para uma cultura inteira, e para um pedaço de si que só existe ali. Nela, palavras como “perdão” e “reconciliação” deixam de ser abstrações esquecidas nos dicionários da vida e ganham carne, cheiro e som. Tornam-se gestos possíveis, pontes sobre distâncias, chaves que abrem a porta para o reencontro.
No fundo Mufolhe é sobre a escolha de voltar ou não. Sobre o reconhecimento de que nem todo arrependido encontra as mesmas portas fechadas, porque para alguns, a espera é um ato de amor inquebrável e atemporal.
Quando a última nota se dissolve, não resta nem o som e nem palavra alguma. Fica uma espécie de eco interno, feito de saudade, arrependimento e esperança. Fica a lembrança de que, por mais que o dinheiro deslumbre, ele nunca comprará o sabor de casa e nem o abraçoque se esperou por anos
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