A DINÂMICA DOS TRÊS PODERES no filme “ O Preto” de Ivo Madjaia.
~por Daisy Charifo
O filme “O Preto”, de Ivo Madjaia é desde os primeiros segundos uma reflexão sobre uma sociedade politicamente fabricada, onde até algo natural como o sono é milimetricamente pensado.
O filme explora uma realidade vergonhosa, contrapondo dois mundos: o dos despertos e dos adormecidos, este último representando o povo.
A narrativa gira em torno de três personagens acordados, posicionados de forma visivelmente superior aos demais. A sua relação de interdependência, revelada por meio de sussurros e gestos discretos, evoca a estrutura clássica dos três poderes que regem uma sociedade: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.
O poder legislativo cria, revoga, modifica as leis e fiscaliza o poder executivo. O poder judiciário é encarregado de interpretar e aplicar as leis para resolver conflitos, garantindo a justiça e o cumprimento da constituição. O poder Executivo, que em moldes convencionais deveria administrar os serviços públicos e executar as leis aprovadas pelo legislativo, aqui aparece como uma marionete dos outros dois poderes.
O sono é metaforicamente comparado à confiança que o povo entrega às Instituições através daquilo que chamamos de contrato social.
A questão central do filme está relacionada ao que acontece com essa confiança quando o povo está "adormecido". Esse questionamento atinge o clímax numa cena simbólica em que o personagem associado ao Poder executivo recebe uma ordem sussurrada e retira uma peça de roupa de um dos personagens adormecidos. A saia, longe de ser somente uma peça de vestuário, simboliza aqui a dignidade roubada do povo. Este gesto, obstante de ser considerado simples revela o abuso silencioso do poder e a exploração institucionalizada da vulnerabilidade do povo.
Durante quase todo o filme, impera o silêncio até ser abruptamente rompido quando uma das personagens adormecidas desperta, testemunha um dos “roubos” e grita: “Muyive”, duas vezes. O grito duplo não é apenas denúncia, mas revelação. Traz à tona a verdade oculta por trás das ações do Executivo e rompe, ainda que por segundos, a letargia da massa. À primeira vista, a personagem grita ao ver apenas o Executivo a roubar. Mas a duplicação da palavra sugere que há mais de um responsável: se um rouba com as mãos, os outros planejam com a mente. O roubo é físico, mas também é institucional.
O silêncio acompanhando do som da respiração foram muito bem pensados para representar àqueles que, na vida real, por medo, desilusão ou descrença, escolhem o silêncio como forma de sobrevivência. O filme não os condena, ao contrário, expõe os motivos profundos da sua imobilidade, muitas vezes induzida por estruturas que sufocam a cidadania. É uma crítica, portanto, não à ausência de revolta popular, mas às condições que tornam essa revolta inviável.
A morte do Executivo pelas mãos dos seus companheiros é, então, a prova final da hipocrisia institucional: a estrutura que se apresenta como sólida, coesa e funcional é, na verdade, frágil, covarde e autofágica. O poder que se alimenta de si mesmo para sobreviver não serve ao povo, serve apenas à sua própria perpetuação. Essa cena nos lembra que em regimes de opressão, não há lealdade verdadeira entre os que oprimem. A aliança entre os poderes é sustentada por interesses, e não por princípios. Quando esses interesses estão em risco, a aliança desmorona e o primeiro a cair é sempre o que se mostra mais exposto ao julgamento público.
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