Alma de uma crônica: O VELÓRIO DO AUSENTE.
— Seu pai morreu — anuncia um deles, com uma solenidade quase ensaiada.
Fecho a porta. Mas do lado de fora, porque o avô dos meus filhos já estava morto e não se sofre a morte de um morto.
Deixo meus filhos em casa e sigo para o velório de um homem que nunca deixou o escritório para me ver crescer.
No caminho, revejo tudo como um filme mudo:
a creche onde chorei sem consolo,
a escola onde esperei por ele nas festas,
a faculdade que terminei sem aplausos,
o primeiro emprego que nunca rendeu parabéns.
E em todos esses cenários, ele nunca apareceu.
Chego à casa onde viveu por anos, arrastando mais fantasmas que móveis. Ali, só restavam lembranças secas, enxurradas de lágrimas antigas, palavras afiadas, silêncios cortantes.
Eu já havia dito:
“Só coloco os pés lá no dia em que ele morrer”, até porque a sociedade cobra presença até no luto, que filhos feridos enterrem seus pais com honra.
Vejo, entre as pessoas, a mulher que ocupou o lugar da que me deu à luz, ocupou, mas não preencheu. Sinto pena, porque ali, naquela casa, sob a sombra dele, ninguém poderia ser feliz, ninguém dorme em paz sob o tecto de um homem assim.
Falaram de um bom homem,mas eu só conheci o pai ausente e o marido insuportável.
No fim, me aproximei do caixão, olhei por alguns segundos. Não reconheci.
O homem que eu conhecia morreu antes mesmo que eu nascesse.
~por Daisy Charifo
Comentários
Enviar um comentário